quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Jethro Tull - Thick As a Brick

Para o que começou como uma brincadeira e acabou se transformando na grande obra-prima do rock progressivo, podemos dizer que esse tal de Ian Anderson possui um magnífico senso de humor.


Em 1971, o Jethro Tull finalmente atingiu o sucesso e a aclamação crítica com o álbum Aqualung, que contém inúmeros clássicos da banda como a faixa título, Cross-Eyed Mary, Mother Goose, My God, Hymn 43, Locomotive Breath e Wind Up, todas figuras marcadas nos shows da banda. Com um estilo mais pesado e progressivo, evoluindo das raízes blues e folk da banda, o álbum caiu no gosto do público acostumado à experimentação típica do começo da década de 70 e logo foi taxado como um grande álbum conceitual pela imprensa. Ian Anderson se incomodou com o rótulo, pois apesar de algumas músicas do álbum revolverem sobre o mesmo tema, ele não havia realmente pensado em Aqualung como um álbum conceitual. Sua resposta então foi fazer um álbum definitivamente conceitual para agradar os críticos.

Só que a resposta de Ian Anderson e seus colegas não poderia ser um simples álbum conceitual qualquer. A idéia de álbum conceitual do Jethro Tull veio na forma de uma música de quase quarenta e cinco minutos, baseada em um poema abstrato com humor mordaz, e críticas generalizadas, alegadamente escrito por um garoto de 8 anos para um concurso de poesia juvenil de uma cidade pequena. E, para suportar a teoria do poema escrito pelo garoto, um jornal inteiro foi escrito e serviu como capa para o disco, com diversas piadas e tiradas mordazes além da história principal. A história anunciava a desclassificação do poema do garoto-gênio, apelidado de "pequeno Milton" (em referência ao autor de Paraíso Perdido, considerado o maior poema em língua inglesa da história) no último minuto após ele ter sido agraciado com o título no concurso de poesias juvenis de St. Cleve, pois seu poema foi considerado controverso e inclusive ofensivo. Após toda a repercussão, o Jethro Tull teria concordado em gravar uma versão musicada do poema. E o jornal, além de se tornar uma capa de disco lendária e item de colecionador, demorou mais para ser confeccionada pelos membros da banda do que o disco em si.

Musicalmente, a obra não deixou por menos. Composta de diversos movimentos interligados, com alguns motivos principais que são repetidos ao longo da obra, ligados por extensas passagens instrumentais que passam pelo rock progressivo, música clássica e até improvisações free-jazz e experimentais. O som do álbum traz a mistura de rock progressivo, folk e clássico pelo qual o Jethro Tull se tornaria bastante conhecido, com um destaque muito grande para os teclados de John Evan, que até então havia sido mais um músico de apoio, apenas efetivado no álbum anterior. Em Thick as a Brick, nas longas e intrincadas passagens musicais, o órgão é a espinha dorsal da obra.

Já em relação à letra, a obra passa por diversos temas que em princípio se refeririam aos desafios da passagem da infância para a vida adulta, mas que acabam se generalizando, de passagens épicas a reflexões filosóficas, e também por assuntos mais mundanos. Há passagens peoticamente densas contrastando com temas mais triviais e simples, que tornam crível a teoria de que um garoto escreveu tal poema. Há muitas passagens com fortes alegorias, bastante abstratas, e também muita ironia e sarcasmo, criticando grupos, pessoas e toda a sociedade em si. E a música sempre casa muito bem com a letra, de forma a termos passagens pais abstratas acompanhadas de delicados arranjos de violões e flauta e linahs de órgão melódicas contrastando com riffs mais agressivos de guitarra, órgão, saxofone acompanhados por uma bateria feroz em partes mais sérias e agressivas da letra.

Por fim, a execução do álbum é tão perfeita que, a despeito de ser uma música só de quarenta e cinco minutos, a obra consegue ser muito mais palatável para pessoas fora do meio do rock progressivo que outros álbuns clássicos do gênero. Ian Anderson e seus colegas de banda conseguiram fazer a obra definitiva do rock progressivo, bombástica como ela deveria ser, e sem soar pretensiosa demais. E toda essa perfeição musical se torna demais quando nós pensamos que tudo isso começou como apenas uma resposta irônica aos críticos musicais da época.

Ficha Técnica

Jethro Tull - Thick As a Brick
1972 - Chrysalis
Produtor: Ian Anderson

1- Thick As a Brick (part one) 22:39
2- Thick As a Brick (part two) 21:09

Ian Anderson - vocais, violão, flauta, saxofone, trompete, violino
Martin Barre - guitarra, alaúde
Jeffrey Hammond-Hammond - baixo, vocais
John Evan - piano, orgão, cravo
Barriemore Barlow – bateria, percussão, tímpano
+David Palmer - arranjos de metais e cordas

Avaliação Classic Rock Archives: 5 estrelas

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

The Kinks - The Kinks Are The Village Green Preservation Society

Algumas coisas que acontecem no mundo da música são inexplicáveis e é o caso desse álbum, que por algum motivo inexplicável foi um grande fracasso na época de seu lançamento e hoje é figura certa nas listas de melhores álbuns já feitos, além de ser o álbum de estúdio da banda melhor sucedido comercialmente, passados quase quarenta e cinco anos de seu lançamento.

The Kinks é uma banda bastante conhecida do movimento British Invasion da década de 60. Capitaneada pelos irmãos Ray e Dave Davies, o quarteto foi logo alçado ao estrelato com músicas pesadas e ousadas como o grande sucesso You Really Got Me, ou All Day and All of the Night. Guitarras distorcidas, vocais agressivos e uma atitude rebelde garantiram um lugar de destaque ao quarteto em meio a tantas bandas que
surgiram na Inglaterra na década de 60, além de um banimento por quatro anos nos Estados Unidos.

Em seguida, a banda mostrou uma veia mais melódica com Face to Face e Something Else, que coincidiram com uma queda da popularidade da banda. No entanto, Ray Davies não queria saber de voltar para o estilo antigo e rebelde da banda, pois suas músicas haviam se tornado mais maduras, refinadas e complexas. E os discos anteriores eram apenas uma preparação para um projeto que ele tinha em mente desde 66, chamado de Village Green. E o álbum The Kinks Are the Village Green Preservation Society, de 68, foi a concretização desse projeto intimista do líder da banda, que não foi bem compreendido na época, mas que hoje é considerado a obra-prima do The Kinks e também se tornou ao longo do tempo o álbum de carreira banda mais vendido.

O projeto era tão importante para Ray Davies que inicialmente ele foi fechado em 12 canções, versão lançada em alguns países da Europa e na Australia, mas ele decidiu alterar o projeto e negociar um álbum duplo, que foi rejeitado pela gravadora, que concordou em lançar um álbum com 15 títulos, retrabalhado e aperfeiçoado por Davies.

O tema do álbum conceitual é um retorno às origens, uma nostalgia da vida simples interiorana da Inglaterra. O disco começa com a música Village Green Preservation Society, com um som leve e psicodélico e uma letra cheia de humor, sobre sociedades e organizações que defendem valores e coisas consideradas antiquadas. Segue-se uma ode a amizade juvenil que desaparece com o passar do tempo em Do You Remember Walter? e Picture Book, que faz uma apologia e crítica mordaz ao hábito de tirar fotos para preservar o passado.

O tema ainda se repete no blues de raiz The Last of Steam Powered Trains, comentando sobre uma tecnologia que se torna obsoleta; Animal Farm, uma música bucólica com belos arranjos orquestrais todo feito em mellotron, em cujo protagonista mostra um desejo de viver na proteção da vida simples rural em face aos desafios do mundo; Village Green, uma canção "baroque-pop" que deu origem ao projeto do álbum, e que lida com os sentimentos do protagonista ao voltar para a pequena vila rural em que passou a infância, com mais ironias típicas de Ray Davies em relação à simplicidade da vida rural; Starstruck, uma balada recheada de mellotrons na qual o protagonista reclama que sua amada está se perdendo por estar fascinada com a vida na cidade; e, por fim, People Take Pictures of Each other, que remete ao tema de Picture Book, mas dessa vez criticando mais diretamente o hábito de tirar fotos.

Outros temas tratados no disco são bem conhecidos dos fãs da banda: a contemplação da vida, presente em Big Sky, cujo som é totalmente inspirado em Hendrix e Sitting By the Riverside, que tem um som bem bucólico com toques psicodélicos, e a músicas sobre personagens a parte da sociedade, como a psicodélica Johnny Thunder e Wicked Annabella, com um som mais pesado, característico dos primórdios da banda. Além disso ainda tem a humorosa Monica, influenciada por ritmos latinos; All My Friends Were There, um misto de "baroque-pop" e psicodelia sobre o medo do palco; e por fim a totalmente estranha Phenomenal Cat, que parece ter saído da mente de Syd Barrett, e cujo resultado ficou bem interessante.

Musicalmente, o disco é composto de rocks básicos e baladas com traços de psicodelia e alguns blues, bem comuns para a época. Esse talvez tenha sido um dos fatores que contribuiram para a fraca recepção do disco, pois ele parece um disco velho para a época. Afinal, em fins de 1968, boa parte das grandes bandas já tinham mergulhado de cabeça no rock psicódelico (incluindo Beatles, Stones, The Who, Moody Blues entre os contemporâneos do Kinks) e voltado, ou movido de vez para o rock progressivo. Já o Kinks parecia estar preso ao "som de 66". Além disso, ao invés de temas típicos da contracultura como temas anti-bélicos, protestos contra o conservadorismo, misticismo oriental e pregação da paz mundial, o Kinks apresentava temas mundanos e tipicamente ingleses. No entanto a recepção da época se provou totalmente injusta com a obra, pois em geral são músicas muito sólidas e inventivas, capitaneadas pela musicalidade de Ray Davies, além de um belo trabalho de teclados de Davies e Nicky Hopkins. Vale notar que tirando Village Green, todos os sons de instrumentos de corda e sopro foram tirados do mellotron. Felizmente, com o passar do tempo, essa coleção de músicas bastante agradáveis obteve o seu reconhecimento como uma das pérolas produzidas nesse período tão mágico para o rock e para a música popular em geral que vai de meados da década de 60 até meados da década de 70, deixando pra trás muito da picaretagem da contracultura que ofuscou o álbum na época de seu lançamento, e se tornando um clássico atemporal.

Ficha técnica

Ficha técnica


The Kinks - The Kinks Are the Village Green Preservation Society
1968 - Pye
Produtor: Ray Davies
1- The Village Green Preservation Society (Ray Davies) 2:50
2- Do You Remember Walter? (Davies)  2:27
3- Picture Book (Davies) 2:39
4- Johnny Thunder (Davies) 2:32
5- Last of the Steam-powered Trains (Davies) 4:13
6- Big Sky (Davies) 2:53
7- Sitting by the Riverside (Davies) 2:24
8- Animal Farm (Davies) 3:01
9- Village Green (Davies) 2:11
10- Starstruck (Davies) 2:22
11- Phenomenal Cat (Davies) 2:39
12- All of My Friends Were There (Davies) 2:25
13- Wicked Annabella (Davies) 2:44
14- Monica (Davies) 2:17
15 - People Take Pictures of Each Other (Davies) 2:11

Ray Davies- guitarra, violão, vocais, gaita, piano, orgão
Dave Davies- guitarra, vocais
Pete Quailfe- baixo, vocais
Mick Avory- bateria, percussão
Nick Hopkins- piano, cravo, orgão, harmônio, mellotron
+Rasa Davies: vocais

 Classificação Classic Rock Archives: 4 estrelas

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Tim Buckley - Goodbye And Hello

Após um álbum de estréia sólido, numa mistura de folk e rock, Tim Buckley alçou um vôo mais alto em sua carreira com seu segundo álbum, o aclamado Goodbye and Hello. Nesse álbum, Tim Buckley deixa um pouco de lado a simplicidade das músicas entre dois e três minutos que eram norma da época e começa a se utilizar de recursos e estruturas cada vez mais experimentais, que iriam culminar com uma série de álbuns experimentais e pouco comerciais que vieram à seguir, como Happy / Sad, Lorca, Blue Afternoon e Starsailor.

Ainda seguindo com a parceira com Larry Beckett na composição, Tim Buckley traz um misto de folk, rock, psicodelia e influências clássicas também, coisa que não era nada incomum na época em que o disco foi gravado e lançado (1967), mas ao contrário de muitas bandas que ainda estavam no ciclo inicial da revolução da contracultura ao acrescentar instrumentos exóticos e efeitos de estúdio em seus rocks básicos de sempre, Buckley já estava entre os líderes da mudança. E nada melhor do que a faixa título do álbum, que além de chegar quase ao nove minutos de duração e contar com orquestração completa, ainda possui um jogo intrincadíssimo de versos no refrão, onde um padrão é intercalado com frases novas, que se encaixam perfeitamente ao contexto da sequência padrão. Outros momentos experimentais do álbum incluem a totalmente lisérgica Hallucinations, que mistura violões ácidos e efeitos especiais com uma performance vocal melancólica e assustadora.

Outro elemento bastante presente na música de Buckley em Goodbye and Hello é a influência de música tradicional, como Carnival Song, que remete à música popular dos séculos anteriores e a medieval Knight-Errant, ambas com um belo arranjo de órgão or harmônio. A crítica à guerra também se faz presente na faixa bombástica inicial, No Man Can Find the War, e a delicada Once I Was. Aliás, a forma como Buckley alterna delicadas melodias como Once I Was, Phantasmagoria in Two e Morning Glory com músicas mais agressivas como a bem psicodélica Pleasant Street e o lamento folk-ácido de I Never Asked to be Your Mountain dão um toque especial ao disco.

O álbum recebeu boas críticas e teve uma recepção comercial moderada, ajudando a cementar a reputação do jovem cantor como grande promessa do folk rock, reputação que ele faria questão de demolir nos álbuns seguintes com músicas cada vez mais experimentais e baseadas no free-jazz e na música avant-garde. Hoje em dia, Goodbye And Hello costuma ser visto como o melhor da obra de Buckley, ao lado do experimental Starsailor. E é certamente um álbum que merece ser apreciado pelos fãs de folk, rock e psicodelia.

Ficha técnica

Tim Buckley - Goodbye and Hello
1967 - Elektra
Produtor: Jerry Yester

1- No Man Can Find the War (Larry Beckett, Buckley) – 2:59
2- Carnival Song (Buckley) 3:12
3- Pleasant Street (Buckley) 5:17
4- Hallucinations (Beckett, Buckley) 4:53
5- I Never Asked to Be Your Mountain (Buckley) 6:05
6- Once I Was (Buckley) 3:23
7- Phantasmagoria in Two (Buckley) 3:28
8- Knight-Errant (Beckett, Buckley) 1:59
9- Goodbye and Hello (Beckett, Buckley) 8:42
10- Morning Glory (Beckett, Buckley) 2:49

Tim Buckley – vocais, violões, guitarras, vibrafone
Lee Underwood – guitarras
John Farsha – guitarras
Brian Hartzler – guitarras
Jim Fielder – baixo
Jimmy Bond – baixo
Don Randi – piano, cravo, harmônio
Henry Diltz – gaita
Jerry Yester – piano, orgão, harmônio
Carter Collins – congas, percussão
Dave Guard – percussão
Eddie Hoh – percussão

Avaliação Classic Rock Archives: 4 estrelas