Algumas coisas que acontecem no mundo da música são inexplicáveis e é o caso desse álbum, que por algum motivo inexplicável foi um grande fracasso na época de seu lançamento e hoje é figura certa nas listas de melhores álbuns já feitos, além de ser o álbum de estúdio da banda melhor sucedido comercialmente, passados quase quarenta e cinco anos de seu lançamento.The Kinks é uma banda bastante conhecida do movimento British Invasion da década de 60. Capitaneada pelos irmãos Ray e Dave Davies, o quarteto foi logo alçado ao estrelato com músicas pesadas e ousadas como o grande sucesso You Really Got Me, ou All Day and All of the Night. Guitarras distorcidas, vocais agressivos e uma atitude rebelde garantiram um lugar de destaque ao quarteto em meio a tantas bandas que
surgiram na Inglaterra na década de 60, além de um banimento por quatro anos nos Estados Unidos.
Em seguida, a banda mostrou uma veia mais melódica com Face to Face e Something Else, que coincidiram com uma queda da popularidade da banda. No entanto, Ray Davies não queria saber de voltar para o estilo antigo e rebelde da banda, pois suas músicas haviam se tornado mais maduras, refinadas e complexas. E os discos anteriores eram apenas uma preparação para um projeto que ele tinha em mente desde 66, chamado de Village Green. E o álbum The Kinks Are the Village Green Preservation Society, de 68, foi a concretização desse projeto intimista do líder da banda, que não foi bem compreendido na época, mas que hoje é considerado a obra-prima do The Kinks e também se tornou ao longo do tempo o álbum de carreira banda mais vendido.
O projeto era tão importante para Ray Davies que inicialmente ele foi fechado em 12 canções, versão lançada em alguns países da Europa e na Australia, mas ele decidiu alterar o projeto e negociar um álbum duplo, que foi rejeitado pela gravadora, que concordou em lançar um álbum com 15 títulos, retrabalhado e aperfeiçoado por Davies.
O tema do álbum conceitual é um retorno às origens, uma nostalgia da vida simples interiorana da Inglaterra. O disco começa com a música Village Green Preservation Society, com um som leve e psicodélico e uma letra cheia de humor, sobre sociedades e organizações que defendem valores e coisas consideradas antiquadas. Segue-se uma ode a amizade juvenil que desaparece com o passar do tempo em Do You Remember Walter? e Picture Book, que faz uma apologia e crítica mordaz ao hábito de tirar fotos para preservar o passado.
O tema ainda se repete no blues de raiz The Last of Steam Powered Trains, comentando sobre uma tecnologia que se torna obsoleta; Animal Farm, uma música bucólica com belos arranjos orquestrais todo feito em mellotron, em cujo protagonista mostra um desejo de viver na proteção da vida simples rural em face aos desafios do mundo; Village Green, uma canção "baroque-pop" que deu origem ao projeto do álbum, e que lida com os sentimentos do protagonista ao voltar para a pequena vila rural em que passou a infância, com mais ironias típicas de Ray Davies em relação à simplicidade da vida rural; Starstruck, uma balada recheada de mellotrons na qual o protagonista reclama que sua amada está se perdendo por estar fascinada com a vida na cidade; e, por fim, People Take Pictures of Each other, que remete ao tema de Picture Book, mas dessa vez criticando mais diretamente o hábito de tirar fotos.
Outros temas tratados no disco são bem conhecidos dos fãs da banda: a contemplação da vida, presente em Big Sky, cujo som é totalmente inspirado em Hendrix e Sitting By the Riverside, que tem um som bem bucólico com toques psicodélicos, e a músicas sobre personagens a parte da sociedade, como a psicodélica Johnny Thunder e Wicked Annabella, com um som mais pesado, característico dos primórdios da banda. Além disso ainda tem a humorosa Monica, influenciada por ritmos latinos; All My Friends Were There, um misto de "baroque-pop" e psicodelia sobre o medo do palco; e por fim a totalmente estranha Phenomenal Cat, que parece ter saído da mente de Syd Barrett, e cujo resultado ficou bem interessante.
Musicalmente, o disco é composto de rocks básicos e baladas com traços de psicodelia e alguns blues, bem comuns para a época. Esse talvez tenha sido um dos fatores que contribuiram para a fraca recepção do disco, pois ele parece um disco velho para a época. Afinal, em fins de 1968, boa parte das grandes bandas já tinham mergulhado de cabeça no rock psicódelico (incluindo Beatles, Stones, The Who, Moody Blues entre os contemporâneos do Kinks) e voltado, ou movido de vez para o rock progressivo. Já o Kinks parecia estar preso ao "som de 66". Além disso, ao invés de temas típicos da contracultura como temas anti-bélicos, protestos contra o conservadorismo, misticismo oriental e pregação da paz mundial, o Kinks apresentava temas mundanos e tipicamente ingleses. No entanto a recepção da época se provou totalmente injusta com a obra, pois em geral são músicas muito sólidas e inventivas, capitaneadas pela musicalidade de Ray Davies, além de um belo trabalho de teclados de Davies e Nicky Hopkins. Vale notar que tirando Village Green, todos os sons de instrumentos de corda e sopro foram tirados do mellotron. Felizmente, com o passar do tempo, essa coleção de músicas bastante agradáveis obteve o seu reconhecimento como uma das pérolas produzidas nesse período tão mágico para o rock e para a música popular em geral que vai de meados da década de 60 até meados da década de 70, deixando pra trás muito da picaretagem da contracultura que ofuscou o álbum na época de seu lançamento, e se tornando um clássico atemporal.
Ficha técnica
Ficha técnica
The Kinks - The Kinks Are the Village Green Preservation Society
1968 - Pye
Produtor: Ray Davies
1- The Village Green Preservation Society (Ray Davies) 2:50
2- Do You Remember Walter? (Davies) 2:27
3- Picture Book (Davies) 2:39
4- Johnny Thunder (Davies) 2:32
5- Last of the Steam-powered Trains (Davies) 4:13
6- Big Sky (Davies) 2:53
7- Sitting by the Riverside (Davies) 2:24
8- Animal Farm (Davies) 3:01
9- Village Green (Davies) 2:11
10- Starstruck (Davies) 2:22
11- Phenomenal Cat (Davies) 2:39
12- All of My Friends Were There (Davies) 2:25
13- Wicked Annabella (Davies) 2:44
14- Monica (Davies) 2:17
15 - People Take Pictures of Each Other (Davies) 2:11
Ray Davies- guitarra, violão, vocais, gaita, piano, orgão
Dave Davies- guitarra, vocais
Pete Quailfe- baixo, vocais
Mick Avory- bateria, percussão
Nick Hopkins- piano, cravo, orgão, harmônio, mellotron
+Rasa Davies: vocais
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